Gêneros Textuais-3: mais dicas de aula por projetos  (OFICINAS & AULAS POR PROJETOS) escrito em segunda 09 fevereiro 2009 09:45

sequencia-didática

Fonte: Escrevendo o Futuro

Autor: Heloisa Amaral

A equipe do Programa Escrevendo o Futuro vem trabalhando, desde 2002, para disseminar a proposta de ensino de língua materna com o uso dos gêneros textuais como instrumento e sequências didáticas como metodologia.

Essa abordagem do ensino de língua foi desenvolvida, inicialmente, pelos pesquisadores da Universidade de Genebra, Joaquim Dolz e Bernard Schneuwly. No Brasil, Roxane Rojo e outros pesquisadores vêm trabalhando nessa perspectiva desde meados dos anos 90.

Atualmente, passados mais de dez anos, muitos professores estão organizando seu trabalho nessa perspectiva, reconhecendo as vantagens de trabalhar de forma integrada com ensino de leitura, escrita, oralidade.

É importante notar que nessa perspectiva se considera que leitura e escrita são conteúdos a serem ensinados, ultrapassando a idéia de que todos os que aprendem a decifrar palavras têm condição de ler qualquer gênero textual e que basta saber copiar palavras corretamente, do ponto de vista ortográfico, para escrever textos que tenham significação.

Esse modo de ver o ensino de língua considera que a leitura e escrita são conteúdos procedimentais, porque são procedimentos ou ações usados na escola para aprender conteúdos conceituais da própria disciplina Língua Portuguesa e de todas as demais disciplinas.

Assim, procedimentos como ler, calcular, escrever, desenhar, expor um assunto oralmente ou por escrito, resumir um texto, desenvolver um raciocínio são considerados objetos de ensino como qualquer conteúdo conceitual.

Ao reconhecer que procedimentos de leitura, escrita e oralidade precisam ser ensinados, as atividades organizadas para o ensino da disciplina Língua Portuguesa tornam-se mais dinâmicas e mais complexas do que atividades de gramática e ortografia pensadas como conteúdos únicos. Essa complexidade deve ser analisada para ser compreendida e bem explorada na organização curricular da Educação Básica.

Prosseguindo com essa reflexão, vamos considerar que, ao ler e escrever na vida cotidiana, em diferentes situações de comunicação, usamos procedimentos básicos de linguagem em qualquer gênero textual, oral ou escrito.

São procedimentos básicos de uso de linguagem ou capacidades de linguagem: narrar, relatar, expor, descrever/ regular ações próprias ou alheias, argumentar.

Ou seja, se a situação de comunicação é uma consulta médica, o profissional de medicina vai regular as ações de seu paciente por meio da receita médica; se um repórter de um jornal deseja publicar uma notícia, vai relatar – respeitando a veracidade – um fato que chame a atenção dos leitores; se, nesse mesmo jornal, um autor de ficção escreve para o entretenimento dos leitores, criará uma crônica que, ao narrar um fato cotidiano, podendo valer-se da ficção.

Para dominar os procedimentos de linguagem, os alunos precisam desenvolver capacidades de linguagem equivalentes.

Para Dolz e Schneuwly, uma possibilidade de organização seria a de selecionar gêneros que contemplem as capacidades de linguagem dominantes e distribuí-los nas séries do Ensino Básico.

Para isso, sugerem que os gêneros a serem ensinados sejam agrupados de acordo com essas capacidades (narrar, relatar, argumentar, expor, descrever ações), para garantir-se que os alunos terão ocasião de desenvolver cada uma delas.

Os gêneros escolhidos para compor cada um dos agrupamentos devem seguir uma progressão ao longo dos anos escolares, isto é, uma distribuição vertical que parta dos mais simples para chegar aos mais complexos. Por exemplo, qualquer professor experiente sabe que pode iniciar um trabalho com narrativas, já no 1º ano, com contos acumulativos e de fadas mas não pode trabalhar com romances.

Como exemplo, organizamos uma tabela com diferentes gêneros textuais distribuídos em progressão pelas séries finais do Ensino Fundamental. 

A partir dessa sugestão, os colegas podem criar inúmeras propostas.

 

 Capacidades
/Séries

Narrar

 Relatar

Argumentar

Expor

Descrever
ações

Narrativa de
viagem

Diário pessoal ou de bordo

Carta de solicitação

Verbete de enciclopédia

Receita médica e culinária

Narrativa de
aventura

 Biografia

Debate oral

Resumo de texto didático

Anúncio publicitário

Conto de
mistério

Notícia

Carta de Leitor

Entrevista

Folder

Crônica

Reportagem

Editorial

Comunicação oral sobre um assunto pesquisado

Catálogo de moda

Romance

Relato de experiência vivida

Artigo de opinião

Artigo de divulgação de experiência científica

Manual de instruções

A organização do trabalho ao longo do ano letivo pode assumir a forma de diversas sequências didáticas isoladas, uma para cada gênero, ou de um projeto que interligue as diversas sequências didáticas de gênero, que pode ser, inclusive, um projeto interdisciplinar.

No exemplo da tabela acima, o 5º ano terá 5 sequências didáticas, uma para cada um dos agrupamentos de gêneros segundo as capacidades de linguagem neles dominantes:

Capacidades
/Séries

Narrar

Relatar

Argumentar

Expor

Descrever
ações 

Narrativa de viagem

Relato de experiência

Carta de solicitação

Verbete de enciclopédia

Recita médica e culinária

É possível integrar as cinco sequências com um projeto que tenha como centro uma viagem ou passeio que a turma fará na aula de Ciências, supostamente em um lugar onde a natureza esteja mais preservada.

O professor de Língua Portuguesa poderia propor, previamente, uma narrativa de viagem para leitura, como Robson Crusoé, por exemplo, e levar os alunos a imaginar como qualquer pessoa que saia de seu ambiente conhecido tem que desenvolver estratégias para sobreviver em um lugar diferente.

Para obter autorização da escola para fazer o passeio de Ciências, os alunos teriam que escrever uma carta de solicitação pedindo autorização para a direção; no final, poderiam escrever um relato sobre a experiência vivida; esse relato, ficcionalizado, poderia tornar-se uma narrativa de viagem quando usariam a imaginação para extrapolar “o real vivido”; cada um dos alunos ficaria encarregado de escrever um verbete, digamos, sobre cada uma das espécies animais e vegetais encontradas no passeio; também poderiam fazer pesquisas sobre lugares distantes e organizar, por exemplo, um livro com receitas exóticas.

Cada um dos gêneros textuais seria trabalhado com sequências didáticas mais ou menos extensas: o relato de experiência exigiria uma sequência curta; a leitura e produção de narrativas de viagem exigiriam uma sequência longa.

O exemplo acima é apenas uma ilustração de como o professor pode organizar, em qualquer série, trabalhos envolventes e criativos com o ensino de língua, usando gêneros textuais como instrumento e sequências didáticas como metodologia.

Para saber mais sobre as questões que este artigo possa trazer, leia também:

Concepções de escrita, texto e gênero textual em relatos de aula de língua materna

Sequências didáticas

Gêneros textuais

Concepções de língua e de ensino de língua

 

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